Um acordo com a infância
Tenho um amigo que só lembra coisas maravilhosas da sua infância, desde um balanço que havia no pátio da sua casa até os aromas inesquecíveis do café que a avó preparava todas as tardes. Suas memórias parecem um comercial de panetone – em sépia. Teve uma vez que nós, da turma, nos irritamos com ele. Vem cá, você não lembra da vez em que seu pai te colocou de castigo sem razão, da vez que você foi o único a não ser convidado para o aniversário de um colega de aula, da vez que todos os seus primos combinaram de fingir que não ouviam nem enxergavam você, de como você morria de vergonha das suas espinhas, de quando você escutou uma tia chamando você de filhote de cruz-credo?
Ele respondeu: não.
Ele não lembra essas coisas porque elas não aconteceram, mas certamente ele vivenciou algumas humilhações, teve que engolir raivas, sentiu-se desprotegido. Só que ele fez uma edição caprichada do filme da sua vida: deletou os maus momentos e salvou a parte boa, e é só sobre ela que comenta com os amigos.
Mesmo a infância mais idílica tem seu lado soturno. O filho do meio que se sentia negligenciado pelos pais. A menina que era obrigada a se vestir de princesinha quando queria mesmo era jogar bola com os garotos. A vez em que o violão tão esperado não veio: Papai Noel trouxe um pianinho de brinquedo. Sem falar nas questões barra pesada: fome, abusos, perdas. Todo adulto é o resultado de uma criança que, mesmo com avós rechonchudos, bolos, pracinhas, piqueniques, vira-latas, árvores de Natal e castelos de areia, teve que ser muito homem antes da hora. Ou muito mulher.
Aí se cresce e há duas opções: ou saboreia-se a vida, ou suporta-se a vida. Essa sutil diferença de verbo e de postura é consequência do quanto esse adulto conseguiu entrar num acordo com a própria infância. Se até hoje ele não perdoou o colega que o difamou na hora do recreio, se continua acreditando que o cachorro da família foi atropelado por sua culpa ou se não se conforma de nunca ter recebido um abraço do pai, vai continuar arrastando correntes vida afora, preso a um passado que já foi, já era, e que não vai mudar.
Meu amigo negociou do jeito dele: jura que nada de ruim lhe afetou na infância, nada, zero, nem o beijo negado pela namoradinha do bairro, nem a vez que quebrou o braço na rua e ficou na porta de casa esperando que alguém chegasse, nem de quando sua mãe esqueceu de buscá-lo na escola.
Ele conseguiu essa proeza: superar o fato de sua mãe ter esquecido de buscá-lo na escola no dia em que ele completava sete anos. Aí a gente tem vontade de jogar uma xícara na cabeça dele por ser uma criatura tão elevada. E ele, rindo, nos chama de crianções, nós que ainda estamos aprendendo, com esforço, a deixar os dodóis do passado para trás.
Ele respondeu: não.
Ele não lembra essas coisas porque elas não aconteceram, mas certamente ele vivenciou algumas humilhações, teve que engolir raivas, sentiu-se desprotegido. Só que ele fez uma edição caprichada do filme da sua vida: deletou os maus momentos e salvou a parte boa, e é só sobre ela que comenta com os amigos.
Mesmo a infância mais idílica tem seu lado soturno. O filho do meio que se sentia negligenciado pelos pais. A menina que era obrigada a se vestir de princesinha quando queria mesmo era jogar bola com os garotos. A vez em que o violão tão esperado não veio: Papai Noel trouxe um pianinho de brinquedo. Sem falar nas questões barra pesada: fome, abusos, perdas. Todo adulto é o resultado de uma criança que, mesmo com avós rechonchudos, bolos, pracinhas, piqueniques, vira-latas, árvores de Natal e castelos de areia, teve que ser muito homem antes da hora. Ou muito mulher.
Aí se cresce e há duas opções: ou saboreia-se a vida, ou suporta-se a vida. Essa sutil diferença de verbo e de postura é consequência do quanto esse adulto conseguiu entrar num acordo com a própria infância. Se até hoje ele não perdoou o colega que o difamou na hora do recreio, se continua acreditando que o cachorro da família foi atropelado por sua culpa ou se não se conforma de nunca ter recebido um abraço do pai, vai continuar arrastando correntes vida afora, preso a um passado que já foi, já era, e que não vai mudar.
Meu amigo negociou do jeito dele: jura que nada de ruim lhe afetou na infância, nada, zero, nem o beijo negado pela namoradinha do bairro, nem a vez que quebrou o braço na rua e ficou na porta de casa esperando que alguém chegasse, nem de quando sua mãe esqueceu de buscá-lo na escola.
Ele conseguiu essa proeza: superar o fato de sua mãe ter esquecido de buscá-lo na escola no dia em que ele completava sete anos. Aí a gente tem vontade de jogar uma xícara na cabeça dele por ser uma criatura tão elevada. E ele, rindo, nos chama de crianções, nós que ainda estamos aprendendo, com esforço, a deixar os dodóis do passado para trás.
- Matha Medeiros